Pesquisar este blog

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Carlos Alberto Pavan "Jacaré"

Motos não são minha paixão em termos de velocidade,(embora tenha um primo distante várias vezes campeão de motovelocidade chamado Walter "Tucano" Barchi);Mas abrirei uma brecha aqui para lembrar um grande piloto motociclista: rápido,ousado,irreverente;A velocidade e seus efeitos eram o que mais amava;Seu nome era Carlos Alberto Pavan, ou simplesmente,Jacaré;



Nascido em Poços de Caldas, MG em 29 de maio de 1952; Uma infância marcada pela dificuldade : a separação dos pais, a mãe indo para MG; Carlos e o irmão ficam em SP com o pai; a relação entre eles conturbada;
Assim a adolescência de Jacaré foi marcada pela rebeldia;mal se formou no 3° colegial, e aos 16 anos foi arrebatado pela paixão por motos e velocidade;
Começou andando na Mondial de um amigo até conseguir sua primeira moto, uma Norton 500, de fabricação inglesa


Norton 500 cc 1957

Foi graças a seu trabalho como mecânico que conseguiu comprá-la, mas logo aquilo que seria uma triste rotina em sua vida aconteceu: em um acidente durante um "passeio" destruiu a Norton por completo;

Mas outra marca sua era a persistência, e assim aos 20 anos, convence Luiz Latorre a lhe emprestar sua moto, uma Ducati 250 para começar a competir;


Jacaré e a Ducati 250 em Interlagos aos 20 anos, em 1972

Jacaré tem uma estréia promissora, com a moto de Latorre consegue boas posições no campeonato de 1972;
Mas o ano de 1973 guardava seu melhor para Jacaré: Denisio Casarini e Walter "Tucano" Barchi, os dois maiores nomes da motovelocidade da época ( e de todos os tempos),  que corriam pela equipe de Edgard Soares, são contratados pela recém montada equipe oficial da Yamaha;  Edgard,irritado com o fato,diz: - "Vocês pensam que são grandes pilotos, não? Pois eu vou pegar um moleque da rua e fazer dele um campeão !"
O "moleque da rua" foi Jacaré.


Jacaré com a moto de Edgard Soares no inicio de 1973; em pé ao lado, o lendário mecânico Chico Sapão, e a esq, Caiuby Rhormens , presidente da Confederação Brasileira de Motociclismo

A primeira vitória viria no final do ano, com uma  Yamaha TR-3, com o mítico n°46 (n° que se tornou marca registrada de Edgard Soares,já falecido;hoje este n° é a marca de uma concessionária Kasinski em SP)


Jacaré e a Yamaha TR-3 n°46

O ano de 1974 seria o mais importante e vitorioso da carreira de Jacaré; Em fevereiro a temporada se iniciava com a famosa Taça Centauro, disputada por pilotos internacionais e os maiores nomes do país: Jacaré termina em 5° pilotando uma antiquada TR3, atrás apenas do campeão mundial de 1973, Kent Anderson  e dos monstros brasileiros Adu Celso, Denísio Casarini e Walter Tucano Barchi, todos pilotando modernas Yamaha TZ 350 oficiais de fábrica...

Março: as 24 Horas de Interlagos; Edgard prepara uma BMW para a disputa que seria pilotada por Jacaré e  Edmar Ferreira; Jacaré vinha entre as primeiras posições, quando a sina o atinge novamente: uma queda e a mão esquerda fraturada; Edmar assume, e ai Jacaré mostra do que era feito: outro teria ido pra casa, ele não, foi ao hospital, engessa a mão e volta a Interlagos para continuar a disputa;só não terminou a prova devido ao motor da BMW não ter aguentado até o final;


Jacaré pilotando a BMW com a mão fraturada nas 24 Hs de Interlagos,1974

O Campeonato Paulista começa em abril e Jacaré ganha de Edgard uma TZ-350 novinha para competir; E com ela conquista em maio, em dupla com o venezuelano Johnny Ceccoto (que depois competiu na F-1),as 500 Milhas de Interlagos, prova que constava do calendário internacional


Jacaré e a TZ 350 em Interlagos,durante as 500 Milhas 1974

É de Jacaré a primeira vitória oficial do circuito de Goiânia, inaugurado em julho de 1974;

Em agosto conquista por antecipação o Campeonato Paulista e se torna líder isolado do Campeonato Brasileiro;
Em 19 de agosto de 1974, crava seu nome na história de Interlagos, ao vencer a mais veloz prova disputa no Hemisfério Sul, as 200 Milhas de Interlagos no anel externo; 


Jacaré na TZ 350 de n° 4 no antigo anel externo de Interlagos

(após a reforma de 1990, o anel externo foi inutilizado e assim o recorde de velocidade nele para uma moto, é de Jacaré para a eternidade)

Mas correr só nas pistas não satisfazia Jacaré, e isso foi sua ruína : rachas, exibições em avenidas e ruas, acidentes... As broncas de seu chefe Edgard cada vez mais constantes


Jacaré se exibindo em cima de uma moto em plena R Augusta

Faltavam duas provas para o término do campeonato de 1974;Ambas em Goiânia; na primeira delas, após o acidente que vitimou fatalmente  Hélio Gumerato nos treinos, Jacaré chega em 2°, atrás de Edmar Ferreira; bastaria completar a prova seguinte na zona de pontuação para ser campeão; Mas isso não ocorreu: Dias antes, Jacaré sofre um gravíssimo acidente na garupa de um amigo,durante um pega no Elevado Costa e Silva (o "Minhocão).
Jacaré fratura a bacia, fêmur,e rótula direitas e a tíbia esquerda;

O título se fora, juntamente com os patrocinadores, com seu contrato com Edgard... Muitos decretaram que era o fim da carreira de Jacaré...diziam os médicos que ele corria sérios riscos de nunca mais dobrar a perna direita e assim estar definitivamente inutilizado;


Jacaré visivelmente abatido, de muletas, nas 24 Hs de Interlagos em 1975;

1975 começa de modo sombrio diriam muitos... Mas a persistência novamente fez o que parecia impossivel: Jacaré consegue se recuperar e voltar;
Com a ajuda do amigo Manolo, que lhe imprestou uma Kawasaki 900, Jacaré se inscreve nas 200 milhas de Interlagos 1975;
Duas semanas antes da prova porém, outro acidente nas ruas quase põe mesmo um ponto final em tudo: nova queda e uma clavícula fraturada;
Com a mesma ainda em fratura instável, Jacaré está no grid de largada com a Kawasaki,e numa prova de total superação de tudo: da dor física, do abandono,da falta de apoio,Jacaré vence de modo espetacular as 200 milhas na categoria Esporte!


Jacaré com a clavícula quebrada no lugar mais alto do pódio nas 200 milhas de Interlagos 1975

Sua fala no pódio era embargada pela emoção; " Vocês verão, serei outro daqui para frente, mudarei, serei campeão enfim!"

Mas infelizmente o que aconteceu foi diferente: 23 de agosto de 1975, já era madrugada de inverno em São Paulo; Jacaré está a bordo de um Porsche guiado por um amigo, quando passam pela Av Cidade Jardim, uma dos mais refinados endereços de São Paulo, quando por eles passa uma Honda CB 750 Four, ou mais conhecida como ''7 Galo", literalmente voando... o Porsche a alcança num farol, e de relance, Jacaré decide fazer um pega; Empresta outra  Honda 750 de alguém e saem em alta velocidade; Na altura do restaurante Pandoro, aparece um Opala na frente dos dois: Assustado com o ronco aterrorizante da 7 Galo, o motorista do Opala puxa o carro da esquerda para a direita, cortando a trajetória de Jacaré;
E assim. a 150 Km/h Jacaré entra na traseira do Opala, tendo morte instantânea;
Estava tudo acabado; Os sonhos do menino rebelde de Poços de Caldas estavam
mortos;era o triste fim de uma vida marcada pelo entusiasmo;
Seu cortejo fúnebre foi uma das cenas mais marcantes do mundo da velocidade: 2000 motos com cravos vermelhos nos guidões seguindo o carro fúnebre...



A emocionante narrativa da morte de Jacaré pela voz do radialista Hélio Ribeiro




Esse foi o ronco que assustou o motorista do Opala em 23 de agosto de 1975:
o inconfundível 4 em 1 da 750 CB Four "7 Galo"
















segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pierre Levegh

Ele tinha tudo para ter passado para a história pelo seu talento, mas infelizmente, ficou como o protagonista do pior acidente da história do automobilismo;
Pierre Levegh nasceu Pierre Eugène Alfred Bouillin, em 22 de dezembro de 1905, em Paris, França

Pierre Levegh

Adotou o nome Levegh em homenagem o tio, pioneiro das corridas, que morreu em um acidente em 1904, um ano antes de seu nascimento;Além de piloto,Levegh também  jogou hockey no gelo e tênis; Mas os carros foram sua grande paixão, e na 1° temporada de F1, em 1950, começou a competir com um Talbot-Lago; A essa época, a mítica prova das 24 hs de Le Mans estava no calendário juntamente com a F-1; com o Talbot, Levegh foi 14° na prova de 1951 e em 1952 abandonou por quebra; em 1953 foi 18° e em 1954 se envolveu em uma batida após 17 horas de corrida;
Mas 1955 prometia; Levegh iria pilotar a maior máquina da época, a Mercedes Benz 300SLR; a versão carenada da W-196 de F-1


A mítica Mercedes 300 SLR de 1955

As 24 hs de LeMans de 1955 tinha tudo para ser uma prova excepcional, com um embate entre a inglesa Jaguar, a italiana Ferrari e a alemã Mercedes, as 3 com seus modelos mais emblemáticos de todos os tempos (pela ordem): D-Type,121 LM e 300 SLR.
A Jaguar tinha como pilotos, o inglês Mike Hawthorn e o novato Ivor Bueb; a Ferrari o grande piloto italiano Eugênio Castellotti,e o americano Phill Hill; a Mercedes trouxe dois carros; um para a dupla Juan Manuel Fangio(ARG) e Stirling Moss(GBR);os maiores pilotos da época e dois dos maiores de todos os tempos; e um para a dupla Jonh Fitch (EUA) e Pierre Levegh.
com 49 anos Levegh via uma chance para se  tornar vitorioso: tinha simplesmente o melhor carro de todos, para quem em 1952 conduziu seu Talbot por 22 horas seguidas sem troca de pilotos e quebrou justamente em 1° lugar, uma vitória era mais que possivel;

As 16 hs do sábado, dia 11 de junho de 1955, começa a prova: Castellotti e sua Ferrari largam em 1°; Fangio e Hawthorn imprimem um ritmo alucinante: chegam a rasgar a grande reta Hunaudières a 300 km/h; mais que uma disputa automobilistica, era uma disputa incurada da 2°Guerra Mundial; Hawthorn estava decidido a impedir que um carro alemão ganhasse de um carro inglês.


Castellotti com a Ferrari n°4, seguido de Hawthorn no Jaguar n°6 e Fangio na Mercedes n°16


Duas horas e meia de prova, volta n°34: Hawthorn está em 1°, seguido de Fangio em sua Mercedes, O Jaguar n°6 está próximo de fazer seu 1° pit stop; Hawthorn decide pisar o máximo que pode para abrir uma vantagem que o permita voltar dos boxes ainda na briga pelo 1° lugar, (algo desnecessário em uma prova com 24 hs de duração);
Ele acelera seu Jaguar ao máximo, e a 100 metros dos boxes, se valendo dos poderosos freios a disco da Girlling, freia repentinamente;Mas havia um detalhe que Hawthorn não considerou:para esta manobra ele ultrapassou um carro mais lento, um Austin-Healey A-100 de  categoria menor(em Le Mans, disputam-se várias classes de automóveis ao mesmo tempo); O Austin guiado por Lance Macklin estava a no máximo 180 km/h e viu a traseira do D-Type crescer a sua frente; sem conseguir frear e para desviar do Jaguar, joga para sua esquerda; apontam as 2 Mercedes na reta a 260 km/h : Levegh que estava levando uma volta dos lideres vinha a frente e Fangio logo atrás; Levegh não consegue desviar do Austin e decola sobre sua traseira: a Mercedes voa sobre a arquibancada;capota inumeras vezes e explode; seus destroços em chamas matam Levegh(que teve o crânio fraturado) e mais 87 espectadores; 79 pessoas ficam feridas; corpos em chamas voam  para a pista diante de fiscais e mecânicos aterrorizados;
Há pânico generalizado; muitos correm para as saidas da arquibancada e morrem pisoteados;
o corpo de Levegh foi achado a 70 metros de onde parou o que sobrou do 300 SLR; o clima no autodrómo é horrendo; Mas o diretor de prova Charles Faroux, na decisão mais criticada e condenada da história, decide que a prova vai proseguir; Alfred Neubauer, o emblemático chefe de equipe da Mercedes vai até os boxes da Jaguar;Em um ato de cavalheiro, diz que vai se retirar da prova e solicita o mesmo ;No entanto,a equipe inglesa decide continuar na prova e vence com Hawthorn; no podio,ele bebe a champagne da vitória,ato que revoltou a França; porém nos boxes, a realidade cai: ele tem uma crise de histeria e diz que não quer pilotar mais; Após a prova,os 4 GPS seguintes são cancelados,incluindo o da Suiça, que baniu as provas de automobilismo para sempre de seu território; A Mercedes Benz se retira das competições para retornar somente 40 anos depois;
Ninguém foi responsabilizado pelo acidente de fato; De modo covarde, alguns insinuaram a culpa para Levegh, que morto não teria defesa.... e assim o "Bispo", como Levegh era conhecido, entrou para a historia; não por sua conduta sempre suave e gentil, não por seu talento, mas por ter se envolvido na maior trágedia já ocorrida nas pistas.


Vídeo com raras imagens da tragédia de Le Mans 1955




A tragédia vista de outro ângulo





domingo, 12 de fevereiro de 2012

Peter Brock

A Austrália é quase um continente a parte; seja por sua dimensão territorial, seja por sua geografia única, sua natureza ímpar; Assim,o automobilismo por lá também segue esta regra;
De lá surgiram grandes campeões como Jack Brabham,Dennis Hulme( neo-zelandês,mas que começou a carreira por lá),Alan Jones; nomes sem dúvida conhecidos do grande público por ganharem titulos mundiais de F-1;mas centenas de outros grandes pilotos não são conhecidos pelo grande publico em geral,por disputarem um campeonato restrito a terra dos cangurus: o Australian Touring Cars Championship(ATCC), e o nome de maior destaque de todas sua história é Peter Brock;



Peter Geoffrey Brock nasceu em 26 de fevereiro de 1945, sua família morava na cidade de Hurstbridge, no suburbio de Melbourne;Brock viveu nela sua vida inteira...Seu primeiro carro foi um surrado Austin Seven que adquiriu por míseros 10 Dólares Australianos ( algo perto de £5!)
O carro era terrivelmente mal conservado, não tinha freios e um pedaço da lataria fora arrancado com um machado! Mas foi o suficiente para acender a paixão pelos automóveis em Peter,: no inicio de sua carreira, competiu com o que os australianos chamam de "wild and woolly"- carros pequenos dotados de motores de maior cilindradas,adaptações feitas em pequenas oficinas e garagens; O mais famoso desses sem dúvida era o  Austin A 30 azul, equipado com um poderoso motor Holden de 6 cilindros, guiado por Brock;


O pequeno Austin A 30 com um brutal motor Holden 6 cil,pilotado por Brock

Brock pilotou BMWs,Porsches,Volvos..mas sua relação mais duradora foi com a Holden;
para a divisão australiana da GM, Brock pilotou por 40 anos; por ela, disputou o campeonato Australiano de Turismo,e sua melhor fase foi durante os anos 70;
A fase de ouro dos "aussie muscle car", com a rivalidade maior entre Holden e a Ford; com o Ford Falcon GTHO de um lado e o Holden Torana de outro, ambos com imensos motores V8; 

[O campeonato é disputado nas principais pistas australianas, algumas bem conhecidas pelos amantes de F-1, como Adelaide e Melbourne; mas o ponto alto eram os 1000 km de Bathrust;
Bathrust é uma pequena cidade em Nova Gales,uma das mais belas regiões australianas; o maior destaque de sua paisagem é o Monte Panorama; é nas estradas que o circundam que foi montado o circuito; com quase 6,4 km de extensão, tem como maiores caracteristicas, uma diferença de 150m de altura entre o ponto mais alto e o mais baixo da pista! A última curva antes da reta, a Murray, tem exatos 90° de curvatura.... decididamente não é uma pista para qualquer um; Mas era a casa de Brock, por ela ganhou o apelido de "King of Mountain", o rei da montanha]

Peter Brock formou uma dupla perfeita com o Torana, palavra que no idioma aborigene, significa, aquele que pode voar; e com seu Holden voador, era imbatível no Monte Panorama


Brock e seu Torana GTR XU em Bathrust 1972

Peter foi campeão do Australian Championship Touring  Cars em 1974,1978, e 1980 além de vice em 1973,1979,1981,1984 sempre a bordo de um Holden;
Venceu em Bathrust 1972,1975,1978,1979,1980,1982,1983,1984,1987; sendo que a prova de 1979 entrou para a história pois venceu a prova com 6 voltas de vantagem para o restante além de ter quebrado o recorde da pista.


O mítico Holden Torana AX-9 V8 usado por Brock em 1979

Brock também foi bem sucedido em provas de rally e de longa duração, tendo chegado em 2° nas 24 hs de Spa em 1977 pilotando um mediano Vauxhall Magnun;
Anunciou sua aposentadoria integral em 1997; criou a Peter Brock Foundation, destinada a ajudar crianças e jovens sem recursos, algo como o Instituto Ayrton Senna em nosso país; Brock poderia ter tido uma aposentadoria tranquila, mas a alma de piloto estava inquieta, e decidiu correr mais uma vez; volta em 2006 para pilotar uma réplica do Shelby Cobra GT, ano 2001,equipada com um motor Holden V8 em uma prova de rally no oeste australiano; foi sua derradeira prova e sua despedida deste planeta;em 8 de setembro daquele ano, faltando apenas 3 kilometros para a linha de chegada, Brock choca-se contra uma árvore e é lançado a 50 metros.... aos 61 anos, Peter Brock partiu fazendo o que mais amava,pilotar, pura e simplesmente pilotar.


O que sobrou do Daytona GT de Brock

Para finalizar, um vídeo com a volta final de Bathrust 1979, volta que Brock quebra o recorde da pista, seu até hoje; os aborígenes tinham razão: Brock realmente podia voar











sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Piers Courage

Para ser piloto de F1 nos anos 60, era necessário além de talento, uma boa dose de coragem para enfrentar circuitos inseguros e carros idem; E isso ele tinha até no nome...
Piers Raymond Courage nasceu em 27 de maio de 1942 em Colchester, Inglaterra...Era herdeiro da dinastia Courage,iniciada com Jonh Courage em 1787, de origem escocesa e francesa (daí seu sobrenome Courage - coragem em francês);dinastia dona de uma das maiores cervejarias do Reino Unido, a Courage Brewery;


Piers Courage

Piers teve uma educação privilegiada,estudou no Eton College, o mesmo onde os herdeiros da Família Real Britânica estudam,Começou sua careira no automobilismo pilotando uma Lotus 7;Em 1964 começa a disputar o campeonato de F3 com uma Lotus 22; Disputaria a temporada de 1965 com uma Brabham 1.0L e a de 1966 com uma Lotus 41, dada pelo próprio Colin Chapman.


Piers Courage na F3 em Brands Hatch 1964

Em 1967, Courage assina com a equipe BRM de F-1; O estilo de condução agressivo e arrojado se fez presente na F1 e acabou custando bons resultados para ele e sua equipe, que acabou liberando-o de seu contrato após o GP de Monaco de 67; Porém seu jeito de ser e tratar seus companheiros de equipe lhe rendeu o título de "o último gentilmen da F1", nobreza aliás sempre lhe foi próximo, casou-se com Lady Sarah Curzon em 1966, que ficou conhecida como "Sally" Courage.
Piers termina a temporada de 67, correndo com a Reg Parnell que corria com BRM´s de segunda linha


Courage e o BRM P 126 da Reg Parnell em Nuburgring,1968

Courage estava obtendo bons resultados na Parnell quando reencontra um grande amigo dos tempos de  F-2, Frank Williams.Frank iria montar uma equipe de F-1 e queria que Courage fosse seu piloto; Frank foi uma das grandes amizades da Courage na F-1; a outra seria com o austríaco Jochen Rindt;sua amizade estendeu-se as esposas e familias de ambos...


Nina Rindt (esq) e Sally Courage (dir), cronometrando os tempos de Jochen e Piers,
no fatídico GP da Holanda de 1970: ambas terminariam o ano viúvas


Piers cumpre seu contrato com a Parnell, disputando as temporadas de 1967 e1968, e em 1969, torna-se o primeiro piloto da equipe de seu amigo Frank Williams.Frank adquirira duas Brabham BT-26 para sua equipe em 69


Piers e o Brabham BT-26 de Williams em Silverstone,1969


Piers terminou a temporada de 1969 em 8° lugar, tendo como melhor resultado um 2° lugar em Monaco e um 2° nos EUA, nada ruim para uma equipe que corria com carros defasados;
Para 1970, Frank adquire os  Brabham BT- 30, ainda de segunda, mas estava em negociação com Alejandro De Tomaso, fabricante dos míticos carros esportes que levavam seu nome; este estava criando um modelo para F-1, com chassi feito de um material leve, que se popularizava rápido no automobilismo, mas mortalmente inflamável: magnésio..,


Brabham BT -30 : seria usado nas primeiras provas de 1970

Assim, estreia o Tomaso 505 de F-1 com motor Ford Cosworth V8;
O começo é complicado, o carro demonstra-se irregular e Piers passa as 4 primeiras provas do ano, brigando com o carro literalmente; Vem a 5° etapa, o GP da Holanda, em Zandvoort.


Piers e o Tomaso 505 no GP da Holanda 1970

Courage larga em 9°, passa a primeira metade da prova lutando para manter o carro na pista,porém ouve-se um estalo: na saida no Tunel Oost, algo se quebra;Não se sabe se foi a suspensão dianteira ou a caixa de direção, sabe-se apenas que o Tomaso ficou indirigível, Piers se choca contra um barranco violentamente,o impacto arrancara seu capacete e lhe quebra o pescoço, matando-o instantanemente; Assim não sentiria o horror provocado pelo magnésio:a morte nas chamas preso ao que sobrou do Tomaso


O Tomaso de Courage após o violento impacto

(Horror que exatos tres anos depois, Roger Williamson encontraria no mesmo ponto da pista).

Courage partiu deixando 2 filhos e um legado: de cordialidade com seus companheiros e um estilo de pilotagem leal, fazendo jus a seu título: o ùltimo gentilmen da F-1


O acidente fatal de Courage














quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Jo Schlesser

Nós brasileiros nos acostumamos a ver uma parceira nipo-francesa vitoriosa nos anos 90: Alan Prost e seu McLaren-Honda.Porém houve outra parceria entre um piloto francês e a montadora japonesa nos anos 60 que acabou em tragédia; Este piloto era Jo Schlesser.



Jo Schlesser

Joseph Schlesser nasceu em Lionville,França em 18 de maio de 1928;Ainda criança se mudou com os pais para Madagascar (então possessão francesa).Ao término da 2° Guerra, em 1946, retorna à França a fim de cursar engenharia mecânica em Nante; tinha então 18 anos...Como todo jovem que estuda esta carreira, se apaixonou por carros e por automobilismo. Com 24 anos se inscreve no Rally Lorraine, pilotando um antiquado Dyna-Panhard,mesmo assim venceu a prova!
Começou a competir com uma Ferrari, mas sofre um acidente durante uma prova , caindo de uma ravina.


Acidentes seriam uma constante triste em sua trajetória; Sofre um grave durante os treinos para as 24 Hs de Le Mans em 1961.Decide comprar um F-3 usado, que pertencera ao americano Harry Schell e começa a competir no campeonato francês da categoria;
Em 1963 conhece aquele que viria a ser seu parceiro,companheiro,irmão no mundo das pistas: um bem sucedido empresário do ramo da construção civil francês chamado Guy Ligier
No ano de 1964 disputa algumas provas de Nascar nos EUA, mas seu sonho maior ainda não tinha sido atingido, a F-1;Ele é satisfeito parcialmente em 1966, disputando alguns GPs pela Matra. Somente em 1968 surge a chance maior; disputar uma temporada inteira de F-1;Schlesser tinha então 40 anos, sabia que era sua última chance;
A Honda vinha competindo na F1 desde 1966, conseguindo feitos como a vitória na Itália com John Surtees.Para 1968 iria apresentar seu novo F-1, o RA 302: era um carro totalmente diferente, porém instável,inconstante: sua maior novidade era um chassis 100% feito de magnésio, material extremamente leve e igualmente inflamável.Surtees se recusa a guiar o que lhe parecia uma armadilha fatal sobre rodas.
Schlesser então é chamado; a estréia do RA 302 seria no GP da França, sua casa... tudo parecia perfeito, o próprio Sochiro Honda estaria presente,mas apenas parecia....


Schlesser e o Honda RA 302 em 1968


O palco estava pronto; a mítica pista de Rouen, seu primeiro GP seria em casa, diante de sua torcida; Schlesser larga bem, ganha uma posição, mas na 3° volta a tragédia se descortina:
na curva Six Fréres, o Honda se destabiliza, chicoteia e bate no barranco; com o tanque cheio, a explosão é brutal e não dá chances a Schlesser;quando o fogo sede,20 minutos depois,tudo que resta é um monte de restos calcinados e o corpo carbonizado de Schlesser;
O choque é brutal; a Honda decide abandonar as competições; só retornaria 19 anos depois para fornecer motores a Lotus de um certo Ayrton Senna.... Guy Ligier,em respeito ao amigo se retira para sempre das pistas, se tornando construtor...a Ligier se torna uma equipe de sucesso nos anos 70, com Jaques Laffite.. seus carros sempre eram batizados com as iniciais JS, em respeito ao amigo,irmão e companheiro Jo Schlesser....


Vídeo do acidente fatal de Jo Schlesser


O fogo que consumiu a vida de Schlesser



sábado, 8 de outubro de 2011

Gunnar Nilsson

No mundo do automobilismo, garra,disposição,luta,são palavras comuns e muitos as demonstram nas pistas;Mas houve um que mostrou muito mais garra e disposição lutando pela vida: Gunnar Nilsson.



Gunnar Nilsson

Gunnar nasceu em 30 de novembro de 1948, na cidade de Helsingborg, Suécia; Seu início no automobilismo foi tardio, aos 23 anos,Seus pais eram contra o filho disputar um esporte ,que na época vitimava muitos pilotos;mas o talento lhe era nato: 3 anos após a estreia em corridas, se torna campeão de F3 inglesa, em 1975.Gunnar conquistou nas pistas uma grande amizade com seu compatriota,Ronnie Peterson.
E graças a seu grande amigo, estreou na F1 em 1976: Peterson se desentendeu com Colin Chapman e abandona a Lotus para correr na March; Gunnar então ocupa a vaga deixada pelo amigo na equipe inglesa,seu primeiro GP é o da África do Sul, na perigosa pista de Kyalami.


Sua adaptação ao carro foi vertiginosamente rápida; na 3° prova, sobe ao pódium no GP da Espanha, em Jarama, com um 3° lugar; foi 3° também no GP da Áustria, em Osterreichring,Zeltweg.Seu ótimo desempenho na estréia lhe valeu a renovação do contrato com a Lotus para 1977, como 2° piloto, ao lado do italo-americano Mário Andretti.
E no ano de 77 vem a única vitória de Gunnar na F1, o GP da Bélgica, num circuito de Zolder embaixo da água; chega em 3° na Inglaterra; Tudo parecia caminhar para um título, mas então o câncer começa a dar seus sinais para Gunnar; Dores de cabeça constantes que pioravam a cada ocorrência;


Gunnar com o Lotus 78 no GP de Mônaco,1977

Gunnar assina um contrato com a Arrows para a temporada de 1978, abrindo seu lugar para o amigo Peterson retornar a Lotus;Deixara para consultar um especialista no final da temporada, e o diagnóstico era cruel: câncer testicular,com mínimas chances de sobrevivência; Teria apenas alguns meses a mais de vida, segundo os exames; Mas Gunnar não se entrega, com o mesmo arrojo e determinação demostrados nas pistas decide lutar contra a doença fatal;
Recinde seu contrato e inicia um tratamento no mais renomado centro de combate ao câncer na Europa, o Charing Cross Hospital de Londres.


Durante as dolorosas seções de quimioterapia,Gunnar observava o sofrimento de crianças com câncer que passavam pelo mesmo tratamento;Ele podia adquirir analgésicos e sedativos caros que aliviavam as dores,mas muitas daqueles crianças não podiam; Decide então recusar os sedativos oferecidos pelos médicos e pede que sejam usados pelas crianças.
Passa o ano de 1978 em luta constante: em setembro vem um duro golpe, seu amigo querido Ronnie Peterson, perde a vida na pista de Monza, Itália. Gunnar vai ao funeral do companheiro em Orebo, Suécia;Era um homem extramente debilitado:estava fraco pela doença e inconsolável pela perda do amigo.Retornou a Londres para deixar este mundo em 20 de outubro de 1978, um mês antes de completar 30 anos. A Suécia perdera em 2 meses os 2 maiores pilotos que havia produzido em todos os tempos...


Funeral de Peterson,em 1978: nota-se Gunnar (o 1° da direita para esquerda) debilitado e sem cabelos por causa da quimioterapia

Um ano após sua partida, Elisabetha Nilsson, sua mãe, funda a Gunnar Nilsson Foundation, dedicada as pesquisas em prol da cura do câncer; Hoje graças aos seus trabalhos, a maioria dos casos de câncer testicular tem cura;após 30 anos, os esforços de Gunnar Nilsson afinal, venceram o câncer...




domingo, 25 de setembro de 2011

Lella Lombardi

O automobilismo vem despertando cada vez mais o interesse feminino, e hoje vemos mulheres talentosas como Danica Patrick e Bia Figueiredo se destacando nas pistas da F-Indy;Mas para isso ocorrer, algumas heroínas desbravaram o caminho,numa época em que a presença feminina nos autódromos, se limitavam a mulheres de pilotos e membros de equipes;Dentre essas desbravadoras, destaca-se Lella Lombardi.



Lella nasceu Maria Grazia Lombardi, em 26 de março de 1941, na cidade de Frugarolo, Piemonte, Itália; Era filha de um simples açougueiro local e quando jovem, praticava handbol;Durante uma partida desse esporte Lella se feriu e foi conduzida as pressas para um hospital por um colega;durante o trajeto, feito de carro em alta velocidade, Lella foi "infectada" pelo vírus do automobilismo. Juntou economias durante anos, e finalmente comprou um Fiat de segunda mão, para começar a competir em provas de turismo.
  
No início dos anos 60 começa a competir pela Escuderia Moroni, nas provas do Campeonato de Turismo Italiano; em 1968 estreou na Fórmula 875 Monza (categoria monoposto com motor bicilindrico utilizado no Fiat 500 Giardinetta);
em 1970 disputou a temporada de Fórmula Ford italiana, sendo 3° colocada no final do ano; em 1972 competiu de F-3 italiana, sendo a 10° classificada geral;em 1974 estava na F-5000 inglesa,quando alcançou a categoria maior, a F-1. Estreia no GP da Inglaterra daquele ano, com uma velha Brabham BT 42,porém não se classificou para o grid.


Lella e a velha Brabham BT 42

O ano de 1974 foi um aprendizado para Lella,era a primeira mulher em muitos anos a tentar enfrentar os gigantes na F-1;Porém seu destino mudaria em 1975: Vittorio Zanon, um milionário conde italiano, comprara a vaga deixada por Victorio Brambilla na March, e assim Lella estréia com o carro laranja no GP da África do Sul,no tenebroso circuito de Kyalami; e consegue uma façanha: se classifica a frente de Graham Hill e Wilson Fittipaldi!


Lella no March n°10 em 1975

Na segunda prova, o GP da Espanha, em Montjuich, seu March passa a ser vermelho e branco, com patrocinio da Lavazza;Esta prova passa para a história por dois fatos: o grave acidente sofrido por Rolf Stommelen,que chocou seu carro contra o guard-rail, matando 5 espectadores e a conquista de Lella;Depois do acidente de Rolf, a direção de prova decide encerrar a mesma,já haviam passado dois terços da corrida e assim o resultado foi validado, Lella estava em sexto ,tornando-se a única mulher até hoje a pontuar na F-1.
Em 1976 Lella passa a correr pela RAM,usando modernos Brabham BT 44B,Foi sua última temporada de F1. No ano seguinte disputou provas de Nascar nos EUA (em Daytona) e provas de esporte-protótipos pela Europa.

Lella e o Brabham BT 44 da RAM em Zeltweg, Austria 1976


Lella pilotando um Renault Alpine A 110 

Lella competiu até o final dos anos 1980, quando foi diagnosticada com câncer; Lutou contra a doença com a mesma disposição que correu,mas a doença a derrotou em 3 de março de 1992;Lella, a pequena italiana voadora,a mulher que ousou disputar com os grandes, se despedia desse mundo com 51 anos de idade.