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domingo, 4 de janeiro de 2015

Luigi Musso

Itália: terra de mitos sobre rodas como Ferrari, Maserati e Alfa Romeo; país que conta com uma legião de fanáticos "tifosi" da scuderia de Maranello e amantes do automobilismo; Monza, Vallenunga,Mille Miglia,Targa Florio são provas históricas, mas algo é quase inexplicável: porque não produziu nenhum piloto campeão de F1 desde 1953?
Tenham certeza que não foi falta de revelar grandes nomes, ao contrário; Tem mais a ver com a tragédia que se abateu sobre todas as grandes promessas da Terra da Bota; foi assim com Ascari,Castelloti,Giunti,Bandini,Scarfiotti, e não foi diferente com ele, outro grande piloto italiano, que a morte colheu antes da glória;


Seu nome era Luigi Musso;Nascera em 28 de julho de 1928 na Cidade Eterna, Roma.
Era o filho mais novo dos cinco que o bem sucedido advogado Giuseppe Domenico Musso teve.
Junto com seus irmãos, Luigi teve uma infância abonada em uma bela casa próxima a Via Veneto;Mais aos 16 anos, a vida lhe dá um duro golpe, com a morte de seu pai; era o ano de 1944 e a Itália vivia mergulhada no caos e no horror da 2ºGuerra.Isso teve impacto gigantesco em Luigi, ajudando a se tornar o grande caráter que foi.
Luigi e os irmãos se tornaram herdeiros de uma considerável fortuna, o que lhe deu condições a se dedicar aos esportes: esgrima e hipismo chegou a praticar com algum sucesso, mas logo seria encantado pelo automobilismo;
Seu primeiro carro foi um simples Fiat Topolino, comprado 1 ano após a morte de seu pai.
Começa a frequentar, com seus irmãos mais velhos, a recém aberta oficina de Mimmo Dei, grande nome italiano nas pistas nos anos 20... Essa oficina no centro de Roma viria a se tornar a mítica Scuderia Centro Sud, que competiu por anos na F1 com modelos Maserati.
Os anos 50 se iniciam e com eles, a carreira de Musso; ainda em 1950,participa do Giro D'Itália com um pequeno Fiat 750cc; no ano seguinte termina em 2º na VIII Coppa Ascoli,(corrida não oficial no calendário de F1) , vencida por Franco Bordoni e com Maria Tereza de Fillipis, a primeira mulher a pilotar um F-1 na história, chegando em 3º.

(a temporada de F-1 de 1952 foi memorável também por ter sido a primeira em que uma equipe brasileira disputou, a Escuderia Bandeirantes, com os pilotos brasileiros Chico Landi e Gino Bianco,  pilotando Maseratis A6 GCM, isso 23 anos antes dos irmãos Fittipaldi e seu Copersucar).

Mas a estréia na F-1 para Luigi viria em 1953, a bordo da  Maserati A6GCM,graças ao apoio de Mimmo Dei.


Maserati A6GCM 1952 F-1

Na temporada de estréia,Musso consegue como melhor resultado,um modesto 7ºlugar no Grande Prêmio da Itália.
Musso disputaria as temporadas de 1953 a 1955 pela Maserati, mas já com a mítica 250F.( foi 8º colocado em 53 e 10º na temporada de 54).



Musso e os anos de Maserati



1956: a principal concorrente da Maserati, também era italiana, a Ferrari; o comendatore Enzo havia adquirido a estrutura da Lancia no ano anterior, seu principal projetista Vittorio Jano,o jovem galante Eugênio Castellotti (tema de posts anteriores) e o veterano campeão,Alberto Ascari (último italiano campeão);
Porém Ascari morre tragicamente, em um teste no circuito de Monza; uma vaga na scuderia de Maranelo precisava ser preenchida, e o escolhido foi Luigi Musso.
Assim as duas maiores promessas italianas eram companheiros de equipe: Castellotti e Musso.


Da esquerda para direita: Fangio (de chapéu), Musso, Castellotti (com a camisa da seleção italiana),Harry Schell e Alfonso de Portago, em Sebring, 1956..apenas Fangio chegaria aos anos 60 dentre nós....
Musso terminaria sua primeira temporada na Ferrari em 11º lugar .


Musso e a Ferrari /Lancia D-50


Musso em Mônaco, 1956


No ano seguinte, viria um duro golpe para Musso, a Ferrari e a Itália: a morte de Eugênio Castellotti a 14 de março...Musso porém ficaria sozinho na Ferrari por pouco tempo,logo uma dupla de pilotos britânicos desembarca em Maranelo: Peter Collins e Mike Hawthorn.

Tem início a uma intensa rivalidade entre o italiano e a dupla inglesa. (anos depois,Fiamma Breschi,namorada de Musso, disse que os dois ingleses tinham um acordo, qualquer um dos dois que ganhassem o titulo, iriam dividir os ganhos de modo igual).
Isso forçou Musso a dar o seu melhor em nome dos italianos para bater os dois.
Musso havia conseguido dois ótimos segundos lugares nos GPs da Argentina e de Mônaco e um 7º lugar na Holanda;
6º prova, o GP da França, no circuito de Reims: Musso estava decidido a conseguir uma vitória finalmente...porém o harpin Muzione,na 10º volta, não deixou...Musso perdeu o controle da Ferrari e caiu em uma vala,fazendo-o ser arremessado para fora do carro.Na noite daquele dia,num hospital ao lado da pista, ele não resistiu aos ferimentos e nos deixou.Hawthorn venceu a prova...
Sobre aquele dia, Fiamma Breschi disse que uma cena a marcou para sempre: quando voltava do hospital para o hotel,após a morte do namorado, viu Collins e Hawthorn jogando futebol com uma lata de cerveja vazia alegremente...Collins morreria ainda em 1958 no GP alemão na fatal Nurburgring Nordschife... Hawthorn seria campeão em 58... seria o primeiro e último título dele, que morreria em janeiro de 1959 num acidente de carro fora das competições......


A Ferrari de Musso após o acidente fatal em Reims










domingo, 21 de julho de 2013

Eugenio Castellotti

Fino, elegante, galanteador; Seus modos contrastavam com seus companheiros naqueles primeiros anos da era da F-1;Eram típicos de quem nascera em uma família rica, poderia passar facilmente por um membro da nobreza;Dotado de um talento excepcional nas pistas, era a mais promissora esperança dos italianos após Ascari e Farina... mas uma aposta estúpida de seu chefe o vitimou fatalmente; seu nome era Eugenio Castellotti.



Eugenio Castellotti nasceu em 10 de outubro de 1930, na pequena cidade de Lodi, na Lombardia;
Eugenio vinha de uma abastada familia de Milão,e embora tivesse crescido em meio ao caos da II Guerra Mundial, teve uma infância e adolescência relativamente tranquila;
Milão era nesse época a meca automobilística da Itália: sua proximidade com o mitológico circuito de Monza e o fato de ser a casa da mais importante fábrica de carros esportes da Itália,a Alfa Romeo contribuíram para isso; A época do nascimento de Castellotti,era fascinada pela disputa entre o italiano Tazio Nuvolari e sua Alfa Romeo P3 contra o alemão Rudolf Caracciola e sua Mercedes prata;
Tazio era um  herói nacional e influenciou muito o jovem Castellotti;


Nuvolari e a Alfa Romeo P3 em ação nos anos 30

Aos vinte anos, no verão de 1950, Castellotti compra seu primeiro carro, e não era qualquer carro.. a maioria dos jovens italianos mal podiam comprar um surrado Fiat Topollino pré-guerra como primeiro carro,mas o de Castellotti foi uma Ferrari!
A Ferrari estava se firmando como uma grande marca, nas pistas e nos seus modelos de rua; criação de Enzo Ferrari (que foi piloto e chefe da scuderia de Nuvolari: as Alfas dele tinham o "Cavallino Rampante" pintado ao lado do Quadrifoglio milanês);
Com sua Ferrari, Castellotti começa a competir oficialmente em 1951; ano do titulo mundial de F-1 de Giuseppe Farina e sua Alfa Romeo;
em 1952 veio a primeira viória de Castellotti e sua Ferrari como piloto privado,(correndo com carro próprio e não de equipe) : o GP de Portugal.
Ao chegar em 2° na dificil prova da Mille Miglia de 1953, despertou interesse de uma fábrica italiana que havia decidido seguir os passos da Alfa Romeo e Ferrari  na F-1: a Lancia.


Castellotti e a Lancia D-50 de F-1 1955.

Castellotti disputaria a temporada de 1955 com a D-50; era um carro
rápido e bonito, criação do mítico engenheiro da Lancia, Vittorio Jano.
A Ferrari nessa época encontrava sérias dificuldades para se manter competitiva; as Alfas já não estavam mais em ação e a Lancia tornou-se a única capaz de enfrentar as W-196 da Mercedes Benz, que dominavam em todas as pistas;
Porém, ainda em 1955 a Lancia se viu em dificuldades financeiras; Enzo Ferrari vê uma oportunidade única:  trazer para sua equipe, motores,chassis e o trio que fez as Lancias D-50 respeitáveis: Castellotti e Alberto Ascari no volante e Jano na prancheta.


A nata da Lancia : Jano(1° a direita,de chapéu), Castellotti (a seu lado),Alberto Ascari e Luigi Villoresi (último a esquerda)

Assim 1955 estava relevando a promessa de vitórias na temporada seguinte para a scuderia de Maranello, mas um triste episódio marcou de forma negativa aquilo que parecia um sonho italiano:
Castelloti iria testar a novísssima Ferrari 650 Superleggera em Monza; tudo preparado para o teste começar,mas eis que chega Alberto Ascari; este pede para dar umas voltas com o carro antes do almoço.Diante do pedido de seu mentor, e idolo,Castellotti concorda e empresta seu capacete a Ascari..era dia 26 de maio de 1955...minutos após entrar no carro, Ascari se choca violentamente em uma curva e morre,(esta curva hoje tem o nome de "Variante Ascari" em sua homenagem);Uma semana antes, no GP de Monaco, Ascari havia escapado da morte depois de seu Lancia ter caido no mar, após um choque na chicane do porto;


Ferrari Superleggera 1955/1956, que vitimou Ascari

A morte de seu mentor deixa Castellotti profundamente abalado e marca uma terrivel rotina que abateria Enzo nas próximas décadas:a perda de grandes pilotos.


O Comendador Enzo e Castellotti




1956 se inicia, e Castellotti está no esquadrão de elite do automobilismo.. o posto de  piloto da Ferrari; vitorias e atuações brilhantes em provas como 24 Hs de Le Mans,Mille Miglia,12 hs de Sebring e tudo isso ao lado de ninguém menos que Juan Manuel Fangio, que fora contratado pela Ferrari após a retirada das pistas da Mercedes Benz, ocasionado pela tragédia de Le Mans 1955 (ver post sobre Pierre Levegh);
Somado ao sucesso nas pistas, Castellotti estava casado com a bela atriz e bailarina italiana, Delia Scala.


o belo casal : Castellotti e Delia Scala


Castellotti e a Ferrari 156 F-1 em Mônaco,1956

A dupla Enzo Ferrari e Eugênio Castellotti é o orgulho italiano, Castellotti é considerado o "nuovo Ascari".. nada parece ofuscar ou ameaçar o poderio italiano;nenhuma outra equipe de nenhuma outra nacionalidade parece fazer frente aos carros vermelhos "made in Italy";
A não ser outro carro vermelho italiano, e feito em Modena também;
1957: um novo concorrente surge para a Ferrari: sua vizinha Maserati
a Maserati havia estreado na F-1 na temporada de 1954,mas em 1957 finalmente sua obra máxima estava pronta e aprimorada, a 250 F;
a equipe de Adolfo Orsi roubara Fangio de Ferrari, para fazer dupla com o francês Jean Behra.


Fangio e a Maserati 250 F 1957

O circuito de Modena era o território da Ferrari, o recorde da pista lhe pertencia a anos, até o temperamental francês Behra ameaçar quebrá-lo com sua 250 F;Enzo não admitiria isso e apostou com Adolfo Orsi que Castellotti seria sempre mais rápido;  Enzo convocou Castellotti, que interrompeu suas férias com a esposa na Florença para atender um pedido egocêntrico de seu chefe;
14 de março de 1957, 8:00 hs da manhã; Castellotti entra na sua Ferrari pela última vez, começa a sua volta, em ritmo de classificação para atender o que Enzo queria, e então o desfecho trágico; a brutal batida quando a Ferrari desgarrou no Circollo della Biella; numa desaceleração de 137 km/h; a Ferrari com Castellotti voou por 91 mts e se chocou contra um muro de uma área coberta; Ele teve morte instantânea por uma fratura no crânio;


Notem onde parou a Ferrari de Castellotti

Quando soube da tragédia, Enzo Ferrari teria dito: "Castellotti è morto? no! nooooo! e la macchina?
A aposta que havia sido feita entre Ferrari e Orsi? quem perderia pagaria o café; Isso revoltou Luigi Villoresi, veterano e amigo de Castellotti, a ponto deste nunca mais na vida ter dirigido a palavra a Enzo Ferrari;

Tudo isso ficou perdido na noite dos tempos; a rivalidade entre Alfa Romeo,Maserati,Ferrari e Lancia não existe mais, são todas irmãs debaixo das asas protetoras da FIAT;
Não existem mais homens como Enzo, Orsi, Jano; nem pilotos como Castellotti;
Mas seus feitos permanecerão eternos, como marcos de coragem e romantismo;
Castellotti foi sem dúvida, depois de Ascari e Farina, o maior piloto italiano da F-1